Fertilizante Natural

A EVOLUÇÃO DA FERTILIDADE DO SOLO NA AGRICULTURA TROPICAL

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Juliana Hiromi Sato

Ger. Consultoria e Regulamentação | Mineragro - Pesquisa Agronômica

A agricultura brasileira sempre buscou responder a uma pergunta fundamental “quanto fertilizante deve ser aplicado para alcançar altas produtividades?

A resposta a essa questão permitiu transformar solos altamente intemperizados, originalmente caracterizados por elevada acidez, baixa disponibilidade de nutrientes e alta saturação por alumínio, em áreas agrícolas mais produtivas do mundo. Entretanto, diante dos desafios atuais, uma nova pergunta deve ser feita “a fertilidade do futuro será resultado apenas da compra de insumos ou da capacidade de construir sistemas mais eficientes ao longo do tempo?”

O manejo da fertilidade foi determinante para a consolidação da agricultura brasileira. A partir da década de 1970, tecnologias relacionadas à calagem, fosfatagem corretiva, adubação mineral e melhoramento genético permitiram incorporar extensas áreas do Cerrado à produção agrícola. Segundo Lopes e Guilherme (2016), a combinação dessas práticas foi responsável por transformar solos originalmente considerados de baixa aptidão agrícola em sistemas altamente produtivos.

Inicialmente a principal limitação era química e o desafio consistia em neutralizar o alumínio tóxico, elevar a saturação por bases e fornecer nutrientes em quantidades suficientes para sustentar a produção. Esse modelo foi extremamente bem-sucedido e continua sendo indispensável para a agricultura moderna. Contudo, à medida que os sistemas produtivos evoluíram, tornou-se evidente que a produtividade não depende exclusivamente da quantidade de nutrientes adicionada ao solo.

Um exemplo claro dessa evolução pode ser observado no manejo do fósforo nos solos do Cerrado. Durante a ocupação agrícola do Cerrado, a construção da fertilidade fosfatada exigiu aplicações corretivas expressivas devido à elevada capacidade de adsorção dos Latossolos ricos em óxidos de ferro e alumínio (GOTZ et al., 2023). Após décadas de cultivo e adubação, muitas áreas passaram a acumular quantidades significativas de fósforo residual, conhecido na literatura como legacy phosphorus (RODRIGUES et al., 2016; PAVINATO et al., 2020).

Em diversas regiões produtoras, os teores de fósforo extraível encontram-se atualmente em faixas classificadas como altas ou muito altas. Entretanto, diferenças expressivas de produtividade continuam sendo observadas entre áreas com níveis semelhantes do nutriente. Isso ocorre porque a resposta das culturas passa a depender não apenas do teor disponível determinado pelas análises químicas, mas também da dinâmica de transformação das diferentes frações de fósforo, da atividade biológica do solo, da eficiência radicular e dos processos de ciclagem que regulam sua disponibilidade ao longo do ciclo produtivo (WITHERS et al., 2018; PAVINATO et al., 2020).

Esse exemplo mostra que a fertilidade não pode ser interpretada apenas como um estoque de nutrientes. A capacidade do sistema em mobilizar, transformar e disponibilizar esses recursos tornou-se tão importante quanto a quantidade presente no solo.

Dessa forma, a evolução da agricultura tropical foi acompanhada por uma mudança importante na forma de interpretar a fertilidade do solo. Anteriormente a atenção estava concentrada nos estoques de nutrientes disponíveis, e agora reconhece-se que a produtividade resulta da interação entre processos químicos, físicos, biológicos e mineralógicos que atuam simultaneamente no sistema. Essa visão deu origem aos conceitos modernos de qualidade e saúde do solo, que buscam compreender não apenas quanto nutriente existe no ambiente, mas quão eficiente o sistema é em armazenar, transformar, ciclar e disponibilizar esses recursos para as plantas (KARLEN et al., 1997; VEZZANI; MIELNICZUK, 2009; CHERUBIN et al., 2022).

Essa evolução também pode ser observada na forma como a agricultura brasileira se desenvolveu ao longo das últimas décadas. Inicialmente, predominou uma fase de fertilidade corretiva, focada na superação das limitações químicas dos solos. Posteriormente, consolidou-se em uma etapa voltada à fertilidade produtiva, caracterizada pela intensificação dos sistemas agrícolas, reposição nutricional e busca por maiores rendimentos. Atualmente, observa-se a emergência de uma terceira fase, que pode ser denominada fertilidade estratégica.

Nessa nova abordagem, o objetivo não é apenas fornecer nutrientes para a próxima safra, mas aumentar a capacidade do sistema em utilizar de forma eficiente os recursos disponíveis ao longo do tempo. Simon et al. (2022) ao avaliarem publicações relacionadas à qualidade do solo, identificaram uma transição gradual da análise de atributos isolados para abordagens integradas voltadas ao funcionamento do sistema como um todo. Em outras palavras, a discussão deixa de ser apenas sobre quanto nutriente existe no solo e passa a considerar a eficiência com que esse solo transforma recursos em produtividade.

Por exemplo, quando uma área agrícola aumenta sua capacidade de troca de cátions, amplia sua reserva mineral, melhora a ciclagem de nutrientes ou desenvolve maior eficiência na utilização dos fertilizantes aplicados, parte desse ganho permanece no sistema por vários ciclos produtivo. Esses ganhos não se restringem à safra em que foram obtidos, mas passam a compor a capacidade produtiva do solo ao longo do tempo. Essa visão está alinhada ao conceito proposto por Lal e Pierce (1991), segundo o qual a sustentabilidade dos sistemas agrícolas depende da conservação e da melhoria contínua dos recursos do solo.

Diante disso, a gestão da fertilidade aproxima-se de uma lógica patrimonial. O solo deixa de ser visto apenas como suporte para o desenvolvimento das culturas e passa a ser reconhecido como um ativo capaz de influenciar diretamente a rentabilidade, a estabilidade produtiva e a sustentabilidade da propriedade rural. Isso implicará diretamente na forma como as tecnologias são inseridas nos programas de manejo. Fertilizantes minerais continuam desempenhando papel fundamental na reposição dos nutrientes exportados pelas culturas. No entanto, passam a integrar estratégias mais amplas voltadas à construção da funcionalidade do sistema.

Corretivos de acidez, bioinsumos, compostos orgânicos, sistemas conservacionistas e remineralizadores podem atuar de forma complementar para aumentar a eficiência agronômica dos nutrientes aplicados. Entre essas tecnologias, os remineralizadores têm despertado interesse crescente por contribuírem para o fornecimento gradual de nutrientes e para o fortalecimento da reserva mineral dos solos, complementando estratégias de manejo voltadas à construção da fertilidade em médio e longo prazo (MANNING, 2018; RAMOS et al., 2021; SILVA et al., 2023).

Os maiores avanços da agricultura tropical nas próximas décadas provavelmente não estarão associados apenas ao aumento das doses de fertilizantes, mas à capacidade de produzir mais utilizando melhor os recursos já disponíveis no sistema. Essa lógica está alinhada aos conceitos modernos de qualidade do solo, saúde do solo, eficiência do uso de nutrientes e funcionalidade dos agroecossistemas (CHERUBIN et al., 2022; SILVA et al., 2023).

A trajetória da agricultura brasileira demonstra que a fertilidade do solo sempre esteve associada à capacidade de superar limitações produtivas. No passado, o desafio era corrigir deficiências químicas e viabilizar a produção em solos altamente intemperizados. Atualmente, o desafio passa a ser aumentar a eficiência dos sistemas agrícolas e ampliar sua capacidade de utilizar os recursos já disponíveis no ambiente.

Nesse contexto, a fertilidade deixa de ser interpretada apenas como resultado da aplicação de insumos e passa a ser compreendida como um atributo construído ao longo do tempo. A integração entre manejo, tecnologia e qualidade do solo será cada vez mais importante para sustentar produtividade, rentabilidade e competitividade na agricultura tropical

Referências

CHERUBIN, M. R.; KARLEN, D. L.; FRANCO, A. L. C.; TORMENA, C. A.; CERRI, C. E. P.; DAVIES, C. A.; CERRI, C. C. Soil Health: The New Paradigm for Soil Management in Brazil. Agriculture, v. 12, n. 11, 1882, 2022. DOI: https://doi.org/10.3390/agriculture12111882.

GOTZ, L. F.; ZUCARELI, C.; FONSECA, I. C. B.; et al. Phosphate Management for High Soybean and Maize Yield in New Cropping Areas of the Brazilian Cerrado. Agronomy, v. 13, n. 4, 2023. DOI: https://doi.org/10.3390/agronomy13041048.

KARLEN, D. L.; MAUSBACH, M. J.; DORAN, J. W.; CLINE, R. G.; HARRIS, R. F.; SCHUMAN, G. E. Soil quality: A concept, definition and framework for evaluation. Soil Science Society of America Journal, v. 61, n. 1, p. 4-10, 1997.

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LOPES, A. S.; GUILHERME, L. R. G. A Career Perspective on Soil Management in the Cerrado Region of Brazil. Advances in Agronomy, v. 137, p. 1-72, 2016. DOI: https://doi.org/10.1016/bs.agron.2015.12.004.

MANNING, D. A. C. Innovation in resourcing geological materials as crop nutrients. Natural Resources Research, v. 27, p. 217-227, 2018. DOI: https://doi.org/10.1007/s11053-017-9347-2.

PAVINATO, P. S.; WITHERS, P. J. A.; RODRIGUES, M.; et al. Revealing soil legacy phosphorus to promote sustainable agriculture in Brazil. Scientific Reports, v. 10, 2020. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-020-72302-1.

RAMOS, C. G.; QUEROL, X.; DALLA NORA, D.; BREHM, F. A.; SCHNEIDER, I. A. H.; KAHN, H. Mineralogy and nutrient release dynamics of silicate rock fertilizers. Minerals Engineering, v. 173, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.mineng.2021.107180.

RODRIGUES, M.; WITHERS, P. J. A.; SOLTANGHEISI, A.; et al. Legacy phosphorus and no-tillage agriculture in tropical Oxisols of the Brazilian Cerrado. Science of the Total Environment, v. 542, p. 1050-1061, 2016.

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SIMON, C. P.; CHERUBIN, M. R.; FRANCO, A. L. C.; CERRI, C. E. P. Soil quality and soil health research in Brazil: a systematic review. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 46, e0210148, 2022.

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VEZZANI, F. M.; MIELNICZUK, J. O solo como sistema. Curitiba: Editora UFPR, 2011.

WITHERS, P. J. A.; RODRIGUES, M.; SOLTANGHEISI, A.; CARVALHO, T. S.; GUILHERME, L. R. G.; BENITES, V. M.; GATIBONI, L. C.; SOUSA, D. M. G.; NUNES, R. S.; ROSOLEM, C. A.; et al. Transitions to sustainable management of phosphorus in Brazilian agriculture. Scientific Reports, v. 8, 2018. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-018-20887-z.