Os remineralizadores, materiais provenientes da cominuição de rochas silicáticas, contribuem para a melhoria da qualidade do solo, atuando no fornecimento gradual de nutrientes, além de promoverem melhorias nas propriedades físicas, físico-químicas e na atividade biológica do solo (BRASIL, 2023). Além disso, apresentam potencial para contribuir para a remoção de CO₂ atmosférico e a estabilização do carbono no solo por diferentes mecanismos.
Um desses mecanismos está relacionado ao intemperismo de minerais silicáticos, processo no qual as reações de dissolução mineral podem consumir CO₂ e convertê-lo em bicarbonato (HCO₃⁻), uma forma de carbono inorgânico dissolvido relativamente estável. O bicarbonato formado pode permanecer na solução do solo e ser transportado pelas águas de drenagem para rios e oceanos, onde o carbono pode ser armazenado por longos períodos, contribuindo para a remoção de CO₂ da atmosfera (BEERLING et al., 2020; SWOBODA; DÖRING; HAMER, 2022).
Estudos têm demonstrado o potencial da aplicação de rochas silicáticas para a remoção de carbono. Moraes et al. (2025) avaliaram a captura de CO₂ atmosférico por meio do intemperismo acelerado (ERW – Enhanced Rock Weathering), em estudos de caso no estado de Mato Grosso, evidenciando o potencial de materiais silicáticos utilizados na agricultura como estratégia de remoção de carbono.
Entre os materiais de interesse para essa estratégia, destaca-se o kamafugito, rocha silicática de composição mineralógica diversificada, que contém minerais capazes de liberar cátions como Ca, Mg e K durante o intemperismo. Theodoro et al. (2026) avaliaram experimentalmente o kamafugito, juntamente com outras rochas silicáticas brasileiras, em sistemas de lixiviação e cultivo, investigando seus efeitos sobre a dinâmica de nutrientes e carbono. Os resultados reforçam o interesse do kamafugito como fonte mineral capaz de associar o fornecimento de nutrientes aos processos de intemperismo relacionados à remoção de CO₂.
O kamafugito constitui ainda a matéria-prima do KP Fértil, estabelecendo uma conexão entre uma fonte mineral de uso agrícola e o potencial de aplicação de rochas silicáticas em estratégias de remoção de carbono.
Além da remoção de CO₂ associada ao intemperismo, os remineralizadores podem contribuir para a estabilização do carbono orgânico no solo. Santos et al. (2024) destacam que as interações entre a matéria orgânica e os minerais do solo podem proteger o carbono contra a decomposição e reduzir sua liberação na forma de CO₂.
Esse processo ocorre por mecanismos como adsorção da matéria orgânica às superfícies minerais, formação de complexos organominerais e oclusão em agregados e microporos. A composição mineralógica exerce papel importante nesse processo, uma vez que minerais de argila e óxidos de ferro e alumínio apresentam diferentes capacidades de estabilização do carbono no solo.
Resultados experimentais indicam que a aplicação de materiais silicáticos pode também modificar a dinâmica do carbono orgânico do solo. Rodrigues et al. (2024) observaram aumento de até 38% no carbono orgânico total em um experimento de incubação com aplicação de remineralizador em um Latossolo, atribuindo esse comportamento à formação de novas fases minerais capazes de favorecer a proteção física e a estabilização do carbono orgânico e de frações lábeis da matéria orgânica. Esses resultados sugerem que a dissolução de minerais primários e a formação de novas fases minerais podem criar superfícies e sítios de interação capazes de influenciar a retenção de carbono no solo.
Dessa forma, além dos benefícios relacionados ao fornecimento gradual de nutrientes e à melhoria da fertilidade do solo, remineralizadores com características químicas e mineralógicas adequadas apresentam potencial para contribuir para a remoção de CO₂ atmosférico e a estabilização do carbono no solo reforçando a importância desses insumos como uma alternativa para o desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável
REFERÊNCIAS
BEERLING, D. J. et al. Potential for large-scale CO₂ removal via enhanced rock weathering with croplands. Nature, v. 583, n. 7815, p. 242–248, 2020. DOI: 10.1038/s41586-020-2448-9.
BRASIL. Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Secretaria de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços. Plano Nacional de Fertilizantes 2050: uma estratégia para os fertilizantes no Brasil. Brasília, DF: SDIC/MGI, 2023. 197 p. ISBN 978-65-981379-4-6.
MORAES, A. J. S. de; PIEROSAN, R.; MARTINS, E. de S.; MUNIZ, V. H. S. A.; LIMA, M. F. de. Potencial de captura de CO₂ atmosférico por intemperismo aprimorado em Mato Grosso: estudo de casos. Pesquisas em Geociências, v. 51, n. 4, e143683, 2025. DOI: 10.22456/1807-9806.143683.
RODRIGUES, M. et al. Paraná Basin Basalt Powder: A Multinutrient Soil Amendment for Enhancing Soil Chemistry and Microbiology. Journal of South American Earth Sciences, 141, 104957, 2024.
SANTOS, L. F. dos; ABRANTES, E. G. de; MARCHI, G.; MARTINS, E. de S. Inovações na fertilização do solo e o papel dos remineralizadores. In: CONGRESSO LATINO-AMERICANO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, 3., 2024, Tupã. Anais […]. Tupã: ANAP, 2024. p. 69–86.
SWOBODA, P.; DÖRING, T. F.; HAMER, M. Remineralizing soils? The agricultural usage of silicate rock powders: a review. Science of the Total Environment, v. 807, pt. 3, 150976, 2022. DOI: 10.1016/j.scitotenv.2021.150976.
THEODORO, S. H. et al. Rock Dusts: A Silent Revolution for Soil Nutrition and Climate Protection. Sustainability, 18, 4687, 2026.