1. Teor de ferro dos agrominerais silicáticos. Existe problema para o solo e para as plantas?
Os agrominerais silicáticos, matérias primas na composição de vários insumos como remineralizadores e fertilizantes naturais, são caracterizados, no geral, por serem rochas ricas em Ca, Mg, K e Si, apresentando também, em sua constituição, quantidades expressivas de Fe, conforme amplamente descrito na literatura sobre pós de rocha e agrominerais.
No entanto, o ferro presente nesses materiais ocorre predominantemente em formas minerais estáveis, como silicatos ferromagnesianos e óxidos de ferro (hematita e goethita), apresentando baixa reatividade química (van Straaten, 2007). Essa dinâmica implica baixa disponibilidade imediata de Fe na solução do solo, reduzindo significativamente o potencial de toxicidade.
Os solos tropicais brasileiros, especialmente Latossolos e Argissolos, são naturalmente ricos em ferro, com predominância de óxidos de Fe³⁺ altamente estáveis, resultado de intenso intemperismo pedogenético (Alleoni et al., 2009). Nesse contexto, o aporte adicional de Fe via remineralizadores e fertilizantes naturais não altera de forma significativa o equilíbrio geoquímico do sistema solo, tampouco promove acúmulo em níveis potencialmente tóxicos.
Do ponto de vista agronômico, a preocupação com o excesso de ferro no solo está associada a condições específicas em que esse elemento se torna mais disponível na solução do solo, especialmente em ambientes com baixa aeração e potencial redox reduzido, como solos encharcados. Nessas condições, o Fe³⁺ pode ser reduzido a Fe²⁺, forma mais solúvel e potencialmente tóxica às plantas. O excesso de ferro na solução do solo pode provocar efeitos como redução do crescimento radicular, escurecimento e danos às raízes, além de interferir na absorção de outros nutrientes essenciais, como fósforo, manganês, zinco e cobre, devido a interações competitivas (Rout & Sahoo, 2015).
No caso específico do fósforo, a sua indisponibilidade em solos tropicais está fortemente associada à adsorção em superfícies minerais contendo grupamentos Fe–OH e Al–OH, por meio de reações de troca de ligantes, formando ligações estáveis entre fosfatos e óxidos de Fe e Al (Fox & Searle, 1978; Hsu, 1965). A intensidade desse processo segue uma ordem relacionada à mineralogia do solo, sendo maior em óxidos amorfos de Fe e Al, seguidos por óxidos cristalinos, e menor em argilominerais do tipo 1:1 e 2:1.
Estudos em solos brasileiros reforçam a influência da mineralogia, nos quais a maior adsorção de fósforo está associada à presença de gibbsita e goethita em solos mais argilosos, enquanto minerais como a caulinita apresentam menor capacidade de retenção (Oliveira et al., 2018). Segundo Broggi (2004) o teor de argila é um dos principais fatores controladores da disponibilidade de fósforo, onde solos argilosos apresentam maior capacidade de adsorção e menor fósforo remanescente.
Entretanto, é fundamental destacar que esses processos estão diretamente relacionados à mineralogia e às características intrínsecas do solo, e não ao teor total de ferro presente em insumos minerais. No caso dos agrominerais silicáticos, o ferro frequentemente ocorre em formas como magnetita, que necessitam passar por processos de intemperismo e transformação mineral, para eventualmente participar da dinâmica de adsorção de fósforo, sendo esse um processo dependente de condições edafoclimáticas e de difícil previsão temporal (Martins et al., 2004).
Adicionalmente, sob a perspectiva regulatória, observa-se que o Ministério da Agricultura e Pecuária, não estabelece limites para o teor de ferro nessas categorias de insumos, diferentemente do que ocorre para elementos potencialmente tóxicos como arsênio (As), cádmio (Cd), chumbo (Pb), mercúrio (Hg) e cromo (Cr). Essa ausência de restrição normativa reforça o entendimento técnico-científico de que o ferro não é considerado elemento de risco ambiental ou agronômico nas condições normais de uso desses insumos, sendo, ao contrário, um elemento abundante, essencial e com baixa mobilidade nos solos agrícolas.
Sendo assim, conclui-se que, embora em determinadas condições o ferro possa influenciar a disponibilidade de fósforo e de outros nutrientes no solo, esse efeito está predominantemente associado à mineralogia e às características intrínsecas do próprio solo.
Nesse contexto, a utilização de um fertilizante multinutriente como o KP Fértil não possui capacidade de alterar de forma significativa a dinâmica do ferro no sistema solo-planta, nem como gerar toxicidade para as plantas, uma vez que o Fe presente nesses materiais encontra-se majoritariamente em formas minerais estáveis, de baixa reatividade. Portanto, seu uso é considerado seguro e não se espera impacto negativo na disponibilidade de fósforo ou na eficiência agronômica do sistema. Ainda precisamos considerar que, os teores de fosforo do próprio produto atribuídos a minerais reativos e o teor de Si presente no produto, podem ser uma nova fonte de fosforo ou também ajudar na liberação de fosforo que esteja adsorvido no solo (Schaller et al., 2022), resultando em melhorias para a nutrição da planta.
1.1 Referências
ALLEONI, L.R.F. et al. Química dos solos altamente intemperizados. Química e mineralogia do solo – Parte I: Conceitos básicos; Parte 2: Aplicações. Tradução. Viçosa: Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, 2009. v. 2.
BORTOLUZZI, E.C., PÉREZ, C.A.S., ARDISSON, J.D., TIECHER, T., CANER, L.Occurrence of iron and aluminum sesquioxides and their implications for the P sorption in subtropical soils. Applied Clay Science. v.104, p. 196–204, 2015.
BROGGI, F. Adsorção e disponibilidade de fósforo em solos com diferentes composições mineralógicas. 2004. 54 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo) – Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife.
FOX, R.L.; SEARLE, P.G.E. Phosphate adsorption by soils of the tropics. In: DROSDOFF, M. Ed. Diversity of soils in the tropics. Madison: American Society of Agronomy, 1978. P. 97-119.
HSU, P.H. Fixation of phospate by aluminium and iron in acid soils. Soil Science, Baltimore, v. 99, p. 398-402, 1965.
OLIVEIRA, R.; SILVA, L.S.; SOUZA, N.F.; PIETROSKI, M.; CAIONE, G.; SEBEN JUNIOR, G.F.; FERBONINK, G.F.; GOMES, R.P..MARQUES JUNIOR, J.; SANTOS, G.A.A.; CAMPOS, M.C.C. Mineralogy and maximum phosphorus adsorption capacity in soybean development. Journal of Agricultural Science; Vol. 10, No. 7; 2018.
MARTINS, J. C.; MARTINS, E. de S.; REATTO, A. Revisão de intemperismo de micas. Documentos/Embrapa Cerrados, ISSN 1517-5111, n.123, 48 p., 2004.
ROUT, G.R; SAHOO, S. Role of iron in plant growth and metabolism. Rev. Agric. Sci., 3, 1-24, 2015.
SCHALLER, J., WU, B., AMELUNG, W. et al. Silicon as a potential limiting factor for phosphorus availability in paddy soils. Sci Rep 12, 16329, 2022.
VAN STRAATEN, P. Agrogeology: The Use of Rocks for Crops Enviroquest Ltd, Cambridge, 440 p, 2007.